A reportagem de capa da Veja dessa semana nos joga na cara um tema que tantas vezes tentamos evitar: o mal. A matéria tenta, reconhecidamente sem sucesso, explorar a origem do mal. Nem fatores sociais ou bio-químico-físicos são suficientes para explicar porquê ele existe. Mas, por mais que tentemos reduzir tudo a conseqüências de uma condição (econômica, social, afetiva…) injusta, a verdade é que diante de alguns fatos como a morte de Isabella ou a menina goiana torturada, somos compelidos a reconhecer: o mal existe. E bate as nossas portas.
Lembro um pouco vagamente (desculpem-me, o livro está emprestado, não pude consultar exatamente) que em “As Cartas do Coisa-Ruim”, C.S. Lewis afirma que em alguns contextos, o diabo usa da crença na sua existência como arma para provocar medo exagerado nos homens. Em outros, prefere ocultar sua existência porque sem o referencial de “mal”, tudo passa a ser “justificável”. A nossa é certamente uma época em que ele prefere fingir que não existe. A maior prova disso, é que não existe mais a noção de pecado: tudo parece ser patológico.
Ler as matérias sobre esses casos extremos, porém, causa em todos mal estar. Porque o mal atenta contra a razoabilidade, contra o humano. Não é por acaso que se explora tanto a morte de Isabella: é inaceitável que um pai mate a própria filha. Diante disso, não há o que explicar ou justificar (Em tempo: não estou acusando o pai da garota por antecipação. Estou apenas evidenciando o que nessa história toda incomoda tanto).
A reportagem da Veja afirma que o mal começou a ser estudado pela filosofia com o cristianismo. E não é por acaso. O mal só pode ser encarado sem levar ao desespero se existe um bem presente que o vença. A Taciana dizia em outro lugar: em um mundo sem Deus, tudo é possível. Em um mundo onde não existe uma possibilidade de bem, o mal por mais que seja mascarado, impera. Pais matam filhos, crianças são seqüestradas, estupradas, torturadas.
Ler a matéria me deu mal estar. Porque me lembrou que para a maioria das pessoas, Deus, a única possibilidade de bem, ou não existe ou é uma entidade abstrata que apenas de vez em quando serve de consolo. Para a maioria das pessoas, o homem é o centro de tudo, o critério último de tudo é o prazer ou o conforto. Para a maioria das pessoas, o mal simplesmente não existe e um fato inexplicável como esse só pode ser causa de desespero.