Outro dia, estava conversando sobre casamento com dois colegas do Instituto Militar de Engenharia (IME), e a Anne soltou a seguinte sentença:
- Ainda bem que existe divórcio, senão não me casaria nunca.
E explicou:
- Não é que eu quisesse desde o início me separar, mas e se a outra pessoa mudar, se ficar impossível de conviver com ela, eu ia querer poder me separar, quer dizer, não gosto da idéia de ter que ficar com a mesma pessoa pra sempre.
Eu sei que o divórcio, na verdade, não existe, então não podia simplesmente relevar esse comentário. Não podia ser legalzinho e dizer: “É, faz sentido”. Tinha que me posicionar, dizer porquê é errado pensar dessa forma. Casamento é até a morte. Mas nesse momento, percebi como isso, na verdade, não é nada óbvio. Falar “até que a morte nos separe” é fácil, mas viver esse compromisso não é qualquer coisa. Como então negar esse pensamento reducionista e, mais que isso, evitar que a incerteza do futuro nos contamine a ponto de, no fundo, no fundo, concordarmos?
A primeira coisa que pensei depois dessa provocação foi que o casamento não é brincadeira. Em última instância, sempre vai ser uma questão de arriscar, porque não podemos prever o futuro. E daí vem a conclusão lógica que só uma fé viva (=certeza que tudo tem sentido nEle) é capaz de nos dar a segurança de tomar essa decisão “louca” de passar a vida inteira ao lado da mesma pessoa. Quem não tem essa fé viva, não toma essa decisão de verdade, até as últimas conseqüências. Quem não tem essa fé viva pensa “ainda bem que existe divórcio”, mesmo que não perceba ou negue.
Mas aí veio o segundo pensamento: não adianta só pedir, temos que colocar os meios. Nós podemos aumentar nossas chances de sucesso consideravelmente. Como? Simplesmente, escolhendo direito. Falei isso pra Anne e naturalmente veio a outra pergunta. Como é escolher direito? Afinal, as pessoas podem mudar. Hoje ela pode ser muito legal, ideal pra mim, mas e daqui a trinta anos? Trinta anos é muito tempo. Tempo suficiente pras pessoas revelarem como são no núcleo. Tempo suficiente pra perderem-se as máscaras. Nesse momento eu pensei em várias coisas que considerava importante, sem as quais um casamento dificilmente se sustentaria por trinta anos, mas todas eram na verdade apenas uma: amor autêntico.
Minha ex-namorada implicava comigo porque eu falava pra ela que sempre podemos amar mais. Ela dizia que ou se ama, ou não se ama. É uma visão radical do amor, mas não de alguém que vivia um amor intenso, e sim, de alguém que era incapaz de enxergar (ou não queria enxergar) o próprio egoísmo. No fundo dessa mentalidade, está a concepção de que o amor nasce de um forte sentimento, que por si só já move todo o nosso ser na busca do bem da pessoa amada. No entanto, observamos que o sentimento, presente e sincero, não é sempre capaz de nos mover contra o amor-próprio, de impedir que em algumas situações priorizemos nossas necessidade e caprichos, em detrimento do bem do outro. Isso não significa que não se ama, como seríamos levados a crer, mas sim, que se ama pouco.
Aristóteles, na sua Retórica, afirma que amar é “querer o bem do outro enquanto outro”. Descrevendo o amor dessa forma, ele tenta deixar claro que amamos de verdade quando o fazemos com nossa vontade e nossa inteligência, antes do que com nossos sentimentos. Atos de amor são plenos quando são atos de vontade, diferenciando-se daquelas ações que realizamos por instinto, afeto, capricho, gosto, etc. Atos de amor são plenos quando a inteligência verdadeiramente reconhece o bem e também, o outro enquanto outro. Em outras palavras, primeiro há um juízo, um “Por que amar? Como amar? “, para depois, pela vontade, vir o amor. Aquela postura que vimos antes reflete uma visão oposta, ou seja, primeiro viria o amor, pelos sentimentos, e depois o juízo, o “Por que amo essa pessoa?”, mas já entendemos que isso não seria amor autêntico.
Mas podemos ir mais fundo na verdade que o filósofo, e perceber que o verdadeiro amor nasce mesmo é de uma Consciência, de um Juízo, que é enfim, o juízo de Cristo. Percebemos que é o juízo de Cristo que nos revela o bem irrefutavelmente verdadeiro, que nos faz reconhecer completamente quem é o outro e qual é seu real valor, que nos faz reconhecer nossa necessidade de Graça, fonte de força de vontade e firmeza de caráter, e que nos indica enfim, as verdadeiras respostas para aquelas perguntas: “Por que amar? Como amar?”.
Diante desse quadro, nos damos conta que, para amar de verdade, precisamos aprender a amar. Precisamos alimentar a inteligência e fortalecer a vontade. Em outras palavras, precisamos aprofundar sempre, tomar cada vez mais consciência, desenvolver o nosso juízo e crescer em força de vontade. Em termos práticos, só com um juízo claro (só com o Juízo) seremos capazes de examinar nossas vidas, reconhecendo todas aquelas atitudes (ou falta de atitudes) que revelam nosso egoísmo, todos os cantos do coração que ainda guardamos para nós. Só com uma vontade firme seremos capazes de mudar nossa própria conduta e nosso próprio temperamento, e sempre conseguir colocar o bem do outro em primeiro lugar. Só assim seremos capazes de entregar o coração inteiro e amar de verdade.
E não podemos esquecer dos sentimentos. Aprender a amar é também, educá-los. O amor autêntico não é dependente, escravo dos sentimentos. Inclusive, devemos aprender a buscar o bem do outro, sacrificar-se pelo outro, mesmo naqueles momentos em que os sentimentos não estão a favor, quando estamos cansados, desanimados, preocupados, irritados, frios, áridos. Há pouco tempo, li uma biografia de São Josémaria Escrivá, fundador do Opus Dei, e uma reportagem sobre a Beata Teresa de Calcutá. Em ambos os textos, me chamou a atenção a sua postura diante de suas crises espirituais, pelas quais qualquer católico pode passar, independente da intesidade de sua vida interior. Ao invés de se revoltarem contra Deus, por permitir que eles se sentissem áridos, eles agradeciam, olhando para esses momentos dolorosos como oportunidades de purificação, como um antídoto contra o sentimentalismo. Em uma entrevista, o Pe. Brian Kolodiejchuk, postulador da causa da canonização de Madre Teresa, esclarece: “A tendência em nossa vida espiritual, e também na atitude mais geral relativamente ao amor, é que o que conta são os nossos sentimentos. Assim a totalidade do amor é o que sentimos. Mas o amor autêntico a alguém requer o compromisso, fidelidade e vulnerabilidade. Madre Teresa não “sentia” o amor de Cristo, e poderia ter cortado, mas levantava-se às 4:30 hs. cada manhã por Jesus e era capaz de escrever-lhe: Tua felicidade é o único que quero. Este é um poderoso exemplo, inclusive em termos não puramente religiosos.”
É importante que nós saibamos com muita clareza o que significa amar de verdade e que nos lembremos constantemente disso. Mais importante ainda, naturalmente, é que nos decidamos a aprender a amar, a ficar atentos, e sempre buscar amar mais. E é muito importante também que não tenhamos dedos em levar isso em conta na hora de decidir sobre um relacionamento. Pensemos em todas as conseqüências de um divórcio. Se o mundo precisa de uma coisa, é de santas famílias.
Março 3, 2008...9:03 pm
Aprender a amar (by André)
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