Eu, devo confessar, passei uns meses afastada do noticiário econômico. Mas dia desses me pediram: quando tiver um tempinho, posta algumas linhas sobre essa história de inflação lá no PQ. Então, aqui estou eu.
Back to basics. A inflação nada mais é do que a perda de poder aquisitivo de uma moeda, medida pela alta dos preços de uma economia. Ao longo da história, diferentes escolas de pensamento econômico identificam diferentes causas do processo inflacionário. Atualmente, dá-se como certo que a inflação é causada por um descompasso entre oferta e demanda. Se o descompasso é causado por um aumento do consumo agregado (consumo do governo, consumo das famílias e consumo externo), a inflação é de demanda. Se é causado por aumento dos custos de produção, a inflação é de custos. O combate a inflação consiste no ajuste de oferta e demanda da economia, por meio de medidas que estimulem o lado em defasagem e/ou que segurem o lado aquecido.
Além disso, a teoria das expectativas racionais nos mostra que uma âncora nominal minimiza os custos da política monetária, isto é, faz com que o esforço para se conter a inflação dentro de um patamar considerado aceitável comprometa menos o crescimento econômico. No caso brasileiro, assim como na maior parte dos países avançados hoje, a âncora nominal é a meta de inflação. Uma vez definida a meta nominal de inflação, os agentes (que são racionais), tem um único parâmetro para ancorar suas expectativas e basear suas ações. Para que a âncora seja eficiente, porém, é preciso que a autoridade monetária tenha credibilidade. Se os agentes não acreditam que a meta será alcançada, a economia funciona como se não existisse uma âncora. Assim, o BC deve responder a qualquer crise para manter crível sua disposição em cumprir a meta.
Da teoria ao mundo real. Se na teoria a inflação é causada por um ou outro fator, o mundo real não é tão simples assim. Atualmente, é possível dizer que a inflação no Brasil é tanto uma inflação de custos como de demanda. A alta internacional dos preços das matérias primas aumenta os custos de produção em toda a cadeia produtiva e gera descompasso entre oferta e demanda. Por outro lado, o crescimento da economia brasileira tem como conseqüência direta o aumento do consumo das famílias. Sem falar que estamos em ano eleitoral, o que de praxe aumenta também o consumo do governo.
Quando a inflação é gerada por fatores distintos, o combate – claro – se torna mais complexo. Se a inflação é de custos, o mais plausível é que sejam tomadas medida que estimulem a produção: redução de juros, de impostos, etc. Se o problema é o consumo, a melhor saída é contê-lo: redução de crédito ao consumidor e, claro, aumento de juros. A atual alta nos preços do petróleo e dos alimentos (inflação de custos) não é causada por fatores internos a economia brasileira, de modo que estimular a oferta não evitaria que os preços continuassem em alta. Aqui um bom resumo sobre a famosa crise dos alimentos, deixando claro que o buraco é mais embaixo. Resta, então, o combate a inflação de demanda. E é isso que o BC vem fazendo: controle de crédito ao consumidor e aumento dos juros.
Perigo a vista? Como vemos, a atual crise de preços não é um fenômeno isolado nem setorialmente, nem geograficamente. Em um mundo global, os problemas suas causas e conseqüências também são globais. Uma resposta isolada do BC brasileiro, do FED americano não são mais suficientes para controlar a crise. É preciso uma ação global. Manobrar um barquinho é fácil. Manobrar o transatlântico que é a economia mundial é uma tarefa bem mais complexa. Exige coordenação, tempo e paciência. Durante a manobra, ou derrubamos a demanda e causamos uma recessão, ou convivemos com uma inflação um pouco mais salgada, próxima ao teto da meta. E é aqui que mora o perigo. Conviver com uma inflação mais salgada significa perder renda real e ninguém quer perder renda real. Então, o que fazemos? Ah! Claro, trazemos de volta nossa velha amiga conhecida: a correção monetária!
Se existe um perigo na atual crise de preços é a discussão acerca da volta da indexação. A hiperinflação dos anos 80/90 no Brasil só foi possível graças a correção monetária. Os preços subiam exageradamente? Sem problemas: impostos, tarifas, aluguéis e salários iam atrás, automaticamente. O problema da correção monetária é que ela encomenda para o futuro a inflação corrente, de modo que a política monetária é bem menos eficiente. Com o Plano Real, a cultura da correção monetária perdeu força, mas, não se enganem, não morreu. Contratos de aluguel, planos de saúde e mensalidades escolares, por exemplo, continuam sendo atrelados a índices de inflação passada. Isso sem falar de quase todas as tarifas públicas. Com o tempo, na medida em que a inflação se mantinha “comportada”, a indexação nesses contratos foi perdendo importância, mas não foi extinta. Porém, só isso não seria capaz de trazer o monstro da inflação de volta. Afinal, tudo isso está ai desde 1994. O perigo existe quando os custos mais importantes para as empresas são automaticamente ajustados pela inflação: impostos e salários.
Admitir a volta da indexação seria tomar a crise atual como um novo paradigma, aceitar que, com algum atraso, Malthus estava certo. A perda de renda real dos trabalhadores deve sim ser compensada com reajustes salariais. Mesmo porque, a economia se encontra num momento de crescimento. Mas admitir a volta de mecanismos de correção monetária, isso sim, seria uma herança maldita.